Introdução
Não gosto nem de frescura nem de safadeza. Por isso tem gente que acha que
sou matuto do interior.
Só que sou é matuto da
cidade grande mesmo. Mas não desse que enche a cara na frente da televisão, que
passa feriado lavando carro, que abuzina em porta de
hospital, que fura fila de padaria e que arenga por mesa de restaurante.
Fui é
criado por uma crioula do interior e malcriado pelo mundo amodernado. Pareceiro de peão de construção e zelador de prédio de
apartamento, mas intrigado com doutor engravatado e filhinho de papai rico.
já com essa vida besta
aprendi a só sair de casa bem cheiroso: tomar banho com sabonete Vinólia, passar Banha Zezé no cabelo, talco no pé, seiva de
alfazema no sovaco e água de colônia na camisa bocomoco
engomada.
É que,
com o nopró de hoje, findei desaprendendo a aguar pé-de-planta, a criar passarinho solto no quintal, a andar
de bicicleta em rua de terra, a empinar papagaio em dia de chuva e a conversar
lorota na porta de casa de vizinho.
Mas nunca esqueci de levar o pentinho de osso no bolso da calça, o
palito de dente na hora do almoço nem o radinho de pilha pra escutar o Bandeira
Dois.
E nunca vou deixar de me
alembrar que nasci nu, careca, banguelo
e cagado, mas todo mundo vai morrer é lascado.
GUSTAVO
ARRUDA